Honduras contra a história

Street in Yuscarán, Honduras

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Honduras II: Por sus métodos los conocerás (spanish)

By Their Methods You Shall Know Them (English)

 

Honduras contra a história

A Bíblia refere que, certa vez, os mestres da lei levaram uma mulher adúltera diante de Jesus. Pretendiam apedrejá-la até a morte, segundo a lei de Deus os obrigava, que então dizem que era também a lei dos homens. Mestres e fariseus quiseram provar Jesus, do que se induz que este já era conhecido pela sua falta de ortodoxia com relação às leis mais antigas. Jesus sugeriu que quem estivesse livre de pecado atirasse a primeira pedra. Assim, ninguém pôde executar a lei escrita.

Dessa forma e de muitas outras, a própria Bíblia foi mudando a si mesma, apesar de ser uma soma de livros inspirados por Deus. As religiões sempre se orgulharam de ser grandes forças conservadoras, que, enfrentadas pelos reformistas, se converteram em grandes forças reacionárias. O paradoxo está radicado em que toda religião, toda seita foi fundada por algum subversivo, por algum rebelde ou revolucionário. Por algo pululam os mártires, perseguidos, torturados e assassinados pelos poderes políticos do momento.

Os homens que perseguiam a adúltera se retiraram, reconhecendo com os fatos os seus próprios pecados. Mas ao longo da história o resultado foi diferente. Os homens que oprimem, matam e assassinam os supostos pecadores sempre o fazem justificados em alguma lei, em algum direito e em nome da moral. Essa regra, mais universal, foi a aplicada no próprio julgamento de Jesus. Em sua época, ele não foi o único rebelde que lutou contra o Império Romano. Não por casualidade ele foi crucificado junto com outros dois réus. Por associação, quis-se significar que um réu a mais estava sendo julgado. Nem sequer um dissidente religioso. Nem sequer um dissidente político. Invocando outras leis, tirou-se do meio o subversivo, que colocava em questão a “pax romana” e o colaboracionismo da aristocracia e das hierarquias religiosas de seu próprio povo. Tudo foi realizado segundo as leis. Mas a história reconhece-os hoje pelos seus métodos.

O governo de George Bush nos deu assunto de sobra e em grande escala. Todas as guerras e as violações às leis nacionais e internacionais foram acometidas em defesa da lei e do direito. Por seus interesses sectários, ele será julgado pela história. Por seus métodos seus interesses serão conhecidos.

Na América Latina, o papel da Igreja católica quase sempre foi o papel dos fariseus e dos mestres da lei que condenaram Jesus na defesa das classes dominantes. Não houve ditadura militar, de origem oligárquica, que não recebesse a benção de bispos e de sacerdotes influentes, legitimando assim a censura, a opressão e o assassinato em massa dos supostos pecadores.

Agora, no século XXI, o método e os discursos se repetem em Honduras como uma chibatada do passado.

Por seus métodos os conhecemos. O discurso patriota, a complacência de uma classe alta educada na dominação dos pobres sem educação acadêmica. Uma classe dona dos métodos de educação popular, como são os principais meios de comunicação. A censura, o uso do exército em ação de seus plano, a repressão das manifestações populares, a expulsão de jornalistas, a expulsão pela força de um governo eleito por votação democrática, seu posterior requerimento diante da Interpol, sua ameaça à prisão dos dissidentes se regressassem e sua posterior negação pela força ao fato de que regressem.

Para ver melhor esse fenômeno reacionário, vamos dividir a história humana em quatro grandes períodos:

1) O poder coletivo da tribo concentrado em um membro forte de uma família, em geral um homem.

2) Um período de expansão agrícola unificado por um totem (algo assim como um sobrenome vencedor) e depois um faraó ou imperador. Nesse momento, surgem as guerras e se consolidam os exércitos mais primitivos, não tanto para a defesa, mas sim para a conquista de novos territórios produtivos e para a administração estatal da sobreprodução de seu próprio povo e a opressão de seus povos escravos. Essa etapa continua com suas variações até os reis absolutistas da Europa, passando pela era feudal. Em todos, a religião é um elemento central de coesão e também de coação.

3) Na era moderna, temos um renascimento e uma radicalização da experiência grega de democracia representativa. Só que, neste momento, o pensamento humanista inclui a ideia de universalidade, de igualdade implícita de todo ser humano, a ideia da história como um processo de aperfeiçoamento e não de inevitável corrupção e o conceito de moral como um produto humano e relativo a um determinado tempo.

E, talvez, a ideia mais importante, já desde o filósofo árabe Averróis: o poder político não como a pura vontade de Deus, mas sim como o resultado dos interesses sociais, de classes etc. O liberalismo e o marxismo são duas radicalizações (opostas em seus meios) dessa mesma corrente de pensamento, que também inclui a teoria da evolução deCharles Darwin. Esse período de democracia representativa foi a forma mais prática de reunir as vozes de milhões de homens e mulheres em uma só casa, o Congresso ou Parlamento.

Se o humanismo é anterior às técnicas de popularização da cultura, ele também é potencializado por estas. A imprensa, os livros de bolso, os jornais de baixo preço no século XIX, a necessária alfabetização dos futuros operários foram passos decisivos para a democratização. No entanto, ao mesmo tempo, as forças reacionárias, as forças dominantes do período anterior rapidamente conquistaram esses meios. Assim, se já não era possível demorar mais a chegada da democracia representativa, era possível sim dominar seus instrumentos. Os sermões medievais nas igrejas, funcionais em grande parte aos príncipes e duques, se reformularam nos meios de informação e nos meios da nova cultura popular, como o rádio, o cinema e a televisão.

4) No entanto, a onda democrática seguiu seu caminho, com frequência regado a sangue pelos sucessivos golpes reacionários. No século XXI, a onda do humanismo renascentista continua. E com ela continuam os instrumentos para torná-la possível. Como a Internet, por exemplo. Mas também as forças contrárias, as reações dos poderes constituídos pelas etapas anteriores. E, na luta, vão aprendendo a usar e a dominar os novos instrumentos. Quando a democracia representativa não acaba de amadurecer, já surgem as ideias e os instrumentos para passar para uma etapa de democracia direta, participativa, radical.

Em alguns países, como hoje em Honduras, a reação não é contra essa última etapa, mas sim contra a anterior. Uma espécie de reação tardia. Mesmo que, na aparência, implique em uma escala menor, tem uma transcendência latino-americana e universal. Primeiro porque significa uma chamada de atenção diante da recente complacência democrática do continente. E, segundo, porque estimula o “modus operandi” daqueles reacionários que navegaram sempre contra as correntes da história.

Antes, anotamos as provas de por que o presidente deposto em Honduras não violou nenhuma lei, nenhuma Constituição. Agora, podemos ver que a sua proposta de uma enquete popular era um método de transição entre uma democracia representativa para uma democracia direta. Aqueles que interromperam esse processo colocaram marcha ré para a etapa anterior.

A quarta etapa era intolerável para uma mentalidade bananeira que se reconhece por seus métodos.

 

Tradução de Moisés Sbardelotto.

 

 

The Original Frustration

A printed circuit board inside a mobile phone

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La frustración original (Spanish)

The Original Frustration

Jorge Majfud

Lincoln University

 

There are at least three dreams that were persistent from my childhood: in the first one I would try desperately to say something, but I would open my mouth and the words would not come out; in the second one I would try to walk and even though I would lean exaggeratedly forward my legs would not respond in a coordinated way; in the third one I could talk and walk, but the central theme was an endless flight, a mixture of fear and pleasure from escaping the aggression of a mob of people, probably representatives of the law, who did not understand my arguments of innocence. Looking back, I see that this last theme of the series is also central to my three novels. In all of them there is some kind of enclosed space and someone imagining exits. But now I am interested in outlining the problem of the first dream.

My son just turned one year old and in this time of close living I have been recognizing those obsessive dreams, my first frustrations, in his. By helping him to walk I have re-lived my own frustrated desire to do so harmoniously. Certain vertigo panics, falls, his body exaggeratedly leaning forward to aid in producing a step that is not produced, hands and feet that don’t respond the way we want. But without doubt the greatest frustration for this little one, like my own and – I suppose – like the frustration of women and men throughout history, is the precariousness of communication. During the entire first year of life, a person only has one sign for expressing what is most important: crying. Even with all it possible variations, for two adults who have forgotten that first metaphysical language, it is always the same or almost the same crying. A cry to say that they are hungry, to ask for water, to say that they are ready to sleep, to say that the stomach hurts, or the head, the teeth, or the hands those teeth have bitten, to say that they are hot or cold, to say they have a fever or don’t know what they have. Only one sign to say they are frustrated because only one sign is not sufficient for so much emotional complexity. Little by little laughter is incorporated, first as an expression of joy and later, likely, as a self-interested sign of complicity. The game with a little baseball that the child throws from his crib and bursts with laughter – one of his first belly laughs – when he discovers that he can share with his father or his mother a couple of basic rules, becomes a fact of communication. The ball (the tool, the dendrites and axones) is like a new word that is integrated to a new language, the rules of the game. Mere ludic pleasure cannot explain that shout of satisfaction. That fullness that he did not encounter playing alone, signifies the phenomenon of having created or discovered another form of communication, of liberation from his own limits. What else is culture but the radicalization of this attempt at liberation of the individual that often ends in the oppression of oneself or others? The little one has discovered a secret that he projects beyond the fundamental frustration, suspending it in the game. But in the most intense moments of his life, crying remains the principal sign, like an indiscriminate and simultaneous mixture of all words and all languages. In his adult life, like all of us, he will be obligated to make much use of laughter and smiling. In almost every photograph he will be obligated to smile, to demonstrate that he is happy even though he is not; he will repress the crying and, as in childhood, he will reserve it only for certain intense moments of his life, which we all hope will be as few as possible.

Somehow the child’s communication is produced, but the frustration is a perhaps indelible experience, and perhaps the first of all frustrations in life and the frustration that unleashes all the rest: language, writing, the building of bridges, houses, automobiles, political speeches, crimes of passion, declarations of love. Now, how is this communication anxiety reproduced in society? Does some relationship exist between the development of an individual and the development of history? We can sustain the hypothesis that communication in our global world expresses a need for survival as ancient as the invention of writing in Sumeria or of the signs and myths in the Paleolithic period. But this functional necessity is also the reflection of a psychological fixation, product of the “original frustration” of communication. Most, if not all, religious texts, aside from the particular ideological interests of the moment, in general structure their narration of human history as the consequence of the lack of communication of the Father. Nevertheless, the theological reading of each group in power will interpret this human condition as simple disobedience, not only because this can be a sensible theological interpretation for a God like the Judeo-Islamo-Christian God but rather, above all, because it is a convenient interpretation for those who narrate from within a space of social power. Thus, “wanting to know” and “sin of disobedience” have been linked recurrently from the cosmogonic myths to the most sophisticated political myths.

What proportion of the hours of cellular telephone use, e-mail or any other public activity is strictly necessary in its production and reproduction function? Perhaps a negligible part. Most of the time we dedicate to communicating for the exercise of communication itself. Communication forms part of our “inter-ego,” the we that is never fully achieved. In some cases, as in the present historical moment, it would appear that the main obsession is not rooted so much in communication as a medium but as an end: the frustration resulting from the unspoken word translates into an interminable monologue. On occasions, when two people speak by telephone, in essence they effect the superimposition of two monologues. In the monologue, the individual expects the satisfaction of being listened to and satisfied. Listening is not as important as being listened to; in a blog, in a forum of discussion, reading is not as important as being read, which is demonstrated by the immediate opinion of the reader who didn’t complete the reading of the article under discussion. In any case the attention paid by the alienated individual to the other is a social requirement in order to be listened to, in order to be on display in a progressively narcissistic culture. As with a domestic argument, where communication is equally frustrated, as with the child’s crying: what is important is not to listen but to be listened to, to make one’s own arguments prevail. But both dialectical contestants attempt the same thing, the only mutually shared thing is frustration, if not the illusion of a frustrated communication.

Perhaps this phenomenon is a logical reaction against the previous culture, where for centuries one listened to and read infinitely more of what was written or asserted as anti-establishment opinion. With the new cultural and technological tendency, the proportion has been altered in such a way that one might say, exaggerating slightly, that today more is written than what is read, more opinion is expressed than what is listened to, researched and analyzed. Looking at this model, it would not be absurd to imagine another swing of the pendulum, product of a maturation of a culture that might cease to view the new technologies as toys and begin to see them as tools of its own liberation.

It is likely that we are in a stage of history where we have already learned to speak but not yet to communicate. And our arguments fall into the nothingness, which obliges us to flee endlessly. It is likely that the slogans on the T-shirts, with which we believe we express our social ideas in three or four words – or those thoughts and emotions pre-fabricated by Microsoft – are nothing more than that mute cry that others hear by don’t know how to interpret correctly. Is it likely that the eternal and feverish political and religious proselytism is the fiercest expression of this cry?

If the desire for justice proceeds from this frustration of communication, what role does power play in this relationship? Perhaps silence is the form that social power has – the blind voice of the father, of the older brother –of resolving the lack of communication by force, radicalizing it, alienating individuals in a nature deceptively balanced and in peace. And this reaction, that of imposed silence, is new fuel on the fire of the original frustration of the failed communication and of desire, frequently violent, for justice on the part of the one held incomunicado.

 

Translated by Bruce Campbell

 

By Their Methods You Shall Know Them

Honduras

Honduras II: Por sus métodos los conocerás

Honduras Against History

By Their Methods You Shall Know Them


Jorge Majfud

The Bible relates the story of how the teachers of the law brought before Jesus an adulterous woman. They intended to stone her to death, as they were required to do by the law of God, which at the time was said to be the law of men as well. The teachers and Pharisees wanted to test Jesus, from which one can induce that Jesus was already well known for his lack of orthodoxy with respect to the most ancient laws. Jesus suggested that whoever was free of sin should cast the first stone. Thus nobody was able to execute the strict law.

In this way, and in many others, the Bible itself has continued transforming itself, despite being a collection of books inspired by God. Religions have always been considered to be great conservative forces which, faced with reformers, became great reactionary forces. The paradox is rooted in the fact that all religion, all sects, have been founded by some subersive, by some rebel or revolutionary. It is not for nothing that history teems with those martyred, persecuted, tortured and assassinated by the political powers of the moment.

The men who were persecuting the adulteress retreated, recognizing in the turn of events their own sins. But over the course of history the result has been different. The men who oppress, kill and assassinate the alleged sinners always do so with the justification of some law, some right and in the name of some morality. This, more universal, rule was the one applied in Jesus’s own execution. In his time he was not the only rebel who fought against the Roman Empire. Not coincidentally, he was crucified together with two other prisoners. By association, this was intended to signify that he was just another prisoner being executed. Not even a religious dissident. Not even a political dissident. Invoking other laws, they eliminated the suberversive who had questioned the Pax Romana and the collaborationism of the aristocracy and of the religious hierarchies of his own people. Everything was carried out according to the laws. But history recognizes them today by their methods.

George Bush’s government gave us plenty of examples, and on a large scale. All of the wars and violations of national and international law were committed in defense of the law and sovereign right. By its sectarian interests, history will judge it. By its methods, its interests shall be known.

In Latin America, the role of the Catholic Church has almost always been the role of the Pharisees and the teachers of the law who condemned Jesus in defense of the dominant classes. There has never been a military dictatorship of oligarchical origin that didn’t receive the blessing of bishops and influential priests, thereby legitimizing the censorship, the opression of the mass murder of the supposed sinners.

Now, in the 21st century, the method and the discourses are repeated in Honduras like a crack of the whip from the past.

By their methods we know them. The patriotic discourse, the complacency of an upper class trained in the domination of the poor who have no formal education. A class that owns the methods of popular education, which is what the main communication media are. Censorship; the use of the army to carry out their plans; repression of the popular demonstrations; the expulsion of journalists; the expulsion by force of a government elected by democratic vote, its later demand before Interpol, its threat to jail dissidents if they return and its later denial by force of their return.

In order to better see this reactionary phenomenon let’s divide human history into four grand periods:

1)     The collective power of the tribe concentrated in one strong member of a family, generally a man.

2)     A period of agricultural expansion unified by a totem (something akin to a conquering surname) and later a pharoah or emperor. During this time wars emerge and primitive armies are consolidated, not so much for defense as for the conquest of new productive territories and for state administration of its own people’s surplus production and the oppression of its people’s slaves. This stage continues with variations up until the absolutist kings of Europe, passing through the feudal era. In all of these regimes, religion is a central element of cohesion as well as coercion.

3)     In the modern era we have a renaissance and a radicalization of the Greek experiment in representative democracy. But in the modern period humanist thought includes the idea of universality, of the implicit equality of every human being, the idea of history as a process of reaching toward perfection instead of inevitable corruption, and the concept of morality as a human product relative to a determined historical time. And perhaps the most important idea, from the Arab philosopher Averroes: political power not as the pure will of God but as the result of social interests, class interests, etc. Liberalism and Marxism are two radicalizations (opposed in their means) of this same current of thought, which also includes Charles Darwin’s theory of evolution. This period of representative democracy was the most practical form for bringing together the voices of millions of men and women in one house, the Congress or Parlament. If Humanism pre-exists the techniques for popularizing culture, it is also empowered by them. The printing press, the paperback book, the low-price newspapers of the 19th century, the necessary literacy training of future workers were decisive steps toward democratization. Nonetheless, at the same time the reactionary forces, the dominant forces of the previous period, rapidly conquered these media. Thus, if it was no longer possible to further delay the arrival of representative democracy, it was possible to dominate its instruments. The medieval sermons in the churches, functional in great measure for the princes and dukes, were reformulated in the media of information and in the media of the new popular culture, like rade, film and television.

4)     Despite this, the democratic wave continued on, frequently bathed in blood by successive reactionary coups. In the 21st century the renaissance humanist wave continues. And with it continue the instruments to make it possible. Like the Internet, for example. But so too the contrary forces, the reactions of the powers constituted by the previous stages. And in the process of struggle they learn to use and dominate the new instruments. While representative democracy has not yet matured, already one see emerging the ideas and instruments necessary for passing on to a stage of direct democracy, participatory and radical.

In some countries, as today in Honduras, the reaction is not against this latest stage but the previous one. A kind of late reaction. Even though in appearance it suggests a smaller scale, it has Latin American and universal significance. First because it represents a calling to attention of the recent democratic complacency of the continent; and second because it stimulates the modus operandi of those reactionaries who have always sailed against the currents of history.

Earlier we noted the proof of why the deposed president of Honduras had not violated the law or the constitution. Now we can see that his proposal of a non-binding popular referendum was a method of transition from a representative democracy toward a direct democracy. Those who interrupted this process reversed it toward the prior stage.

The fourth stage was intolerable for a Banana republic mentality that can be recognized by its methods.

Translated by Bruce Campbell

Honduras contra la historia

Honduras

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By Their Methods You Shall Know Them (English)

Honduras contra a história (Portuguese)

Honduras contra la historia

Por sus métodos los conocerás

La Biblia refiere que cierta vez los maestros de la ley llevaron ante Jesús a una mujer adúltera. Pretendían apedrearla hasta la muerte, según los obligaba la ley de Dios, que por entonces dicen que era también la ley de los hombres. Maestros y fariseos quisieron probar a Jesús, de lo cual se induce que Jesús ya era conocido por su falta de ortodoxia con respecto a las leyes más antiguas. Jesús sugirió que quien estuviese libre de pecado tirase la primera piedra. Así nadie pudo ejecutar la ley escrita.

De esta forma y de muchas otras, la misma Biblia se fue cambiando a sí misma, pese a ser una suma de libros inspiradas por Dios. Las religiones se han preciado siempre de ser grandes fuerzas conservadoras que, enfrentadas a los reformistas, se convirtieron en grandes fuerzas reaccionarias. La paradoja radica en que toda religión, toda secta ha sido fundada por algún subversivo, por algún rebelde o revolucionario. Por algo pululan los mártires, perseguidos, torturados y asesinados por los poderes políticos del momento.

Los hombres que perseguían a la adúltera se retiraron, reconociendo con los hechos sus propios pecados. Pero a lo largo de la historia el resultado ha sido diferente. Los hombres que oprimen, matan y asesinan a los presuntos pecadores siempre lo hacen justificados en alguna ley, en algún derecho y en nombre de la moral. Esta regla, más universal, fue la aplicada en el mismo ajusticiamiento de Jesús. En su época no fue el único rebelde que luchó contra el imperio romano. No por casualidad se lo crucificó junto con otros dos reos. Por asociación, se quiso significar que se estaba ajusticiando a un reo más. Ni siquiera a un disidente religioso. Ni siquiera a un disidente político. Invocando otras leyes, se sacó del medio al subversivo que ponía en cuestión la pax romana y el colaboracionismo de la aristocracia y las jerarquías religiosas de su propio pueblo. Todo fue realizado según las leyes. Pero la historia los reconoce hoy por sus métodos.

El gobierno de George Bush nos dio tema de sobra y a gran escala. Todas las guerras y las violaciones a las leyes nacionales e internacionales fueron acometidas en defensa de la ley y el derecho. Por sus intereses sectarios será juzgado por la historia. Por sus métodos se conocerán sus intereses.

En América latina, el papel de la iglesia católica ha sido casi siempre el papel de los fariseos y los maestros de la ley que condenaron a Jesús en defensa de las clases dominantes. No hubo dictadura militar, de origen oligarca, que no recibiera la bendición de obispos y de influyentes sacerdotes, legitimizando así la censura, la opresión o el asesinato en masa de los supuestos pecadores.

Ahora, en el siglo XXI, el método y los discursos se repiten en Honduras como un latigazo del pasado.

Por sus métodos los conocemos. El discurso patriota, la complacencia de una clase alta educada en la dominación de los pobres sin educación académica. Una clase dueña de los métodos de educación popular, como lo son los principales medios de comunicación. La censura; el uso del ejército en acción de sus planes; la represión de las manifestaciones populares; la expulsión de periodistas; la expulsión por la fuerza de un gobierno elegido por votación democrática, su posterior requerimiento ante Interpol, su amenaza al encarcelamiento de los disidentes si regresaban y su posterior negación por la fuerza a que regresen.

Para ver mejor este fenómeno reaccionario vamos a dividir la historia humana en cuatro grandes períodos:

1) El poder colectivo de la tribu concentrado en un miembro fuerte de una familia, por lo general un hombre.

2) Un período de expansión agrícola unificado por un tótem (algo así como un apellido vencedor) y luego un faraón o emperador. En este momento surgen las guerras y se consolidan los ejércitos más primitivos, no tanto para la defensa sino para la conquista de nuevos territorios productivos y para la administración estatal de la sobreproducción de su propio pueblo y la opresión de sus pueblos esclavos. Esta etapa se continúa con sus variaciones hasta los reyes absolutistas de Europa, pasando por la Era Feudal. En todos, la religión es un elemento central de cohesión y también de coacción.

3) En la Era Moderna tenemos un renacimiento y una radicalización del experimento griego de democracia representativa. Sólo que en este momento el pensamiento humanista incluye la idea de universalidad, de la igualdad implícita de todo ser humano, la idea de la historia como un proceso de perfeccionamiento y no de inevitable corrupción y el concepto de moral como un producto humano y relativo a un determinado tiempo. Y quizás la idea más importante, ya desde el filósofo árabe Averroes: el poder político no como la pura voluntad de Dios sino como el resultado de los intereses sociales, de clases, etc. El liberalismo y el marxismo son dos radicalizaciones (opuestas en sus medios) de esta misma corriente de pensamiento, que también incluye la teoría de la evolución de Charles Darwin. Este período de democracia representativa fue la forma más práctica de reunir las voces de millones de hombres y mujeres en una sola casa, el Congreso o Parlamento. Si el Humanismo es anterior a las técnicas de popularización de la cultura, también es potenciado por éstas. La imprenta, los libros de bolsillo, los periódicos a bajo precio en el siglo XIX, la necesaria alfabetización de los futuros obreros fueron pasos decisivos hacia la democratización. No obstante, al mismo tiempo las fuerzas reaccionarias, las fuerzas dominantes del período anterior, rápidamente conquistaron estos medios. Así, si ya no era posible demorar más la llegada de la democracia representativa, sí era posible dominar sus instrumentos. Los sermones medievales en las iglesias, funcionales en gran parte a los príncipes y duques, se reformularon en los medios de información y en los medios de la nueva cultura popular, como la radio, el cine y la televisión.

4) No obstante la ola democrática siguió su camino, con frecuencia regado en sangre por los sucesivos golpes reaccionarios. En el siglo XXI la ola del humanismo renacentista se continúa. Y con ella se continúan los instrumentos para hacerla posible. Como Internet, por ejemplo. Pero también las fuerzas contrarias, las reacciones de los poderes constituidos por las etapas anteriores. Y en la lucha van aprendiendo a usar y dominar los nuevos instrumentos. Cuando la democracia representativa no termina de madurar, ya surgen las ideas y los instrumentos para pasar a una etapa de democracia directa, participativa, radical.

En algunos países, como hoy en Honduras, la reacción no es contra esta última etapa sino contra la anterior. Una especie de reacción tardía. Aunque en apariencia implica una escala menor, tiene una trascendencia latinoamericana y universal. Primero porque significa un llamado de atención ante la reciente complacencia democrática del continente; y segundo porque estimula el modus operandi de aquellos reaccionarios que han navegado siempre contra las corrientes de la historia.

Antes anotamos las pruebas de por qué el presidente depuesto en Honduras no violó ninguna ley, ninguna constitución. Ahora podemos ver que su propuesta de una encuesta popular era un método de transición entre una democracia representativa hacia una democracia directa. Quienes interrumpieron este proceso pusieron reversa hacia la etapa anterior.

La cuarta etapa era intolerable para una mentalidad bananera que se reconoce por sus métodos.

Jorge Majfud

Julio 2009

Lincoln University

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El motor de las contradicciones

Cover of "A Brief History of Time"

Cover of A Brief History of Time

El motor de las contradicciones

Siempre que nos enfrentamos a un fenómeno físico o cultural buscamos en el aparente caos de datos y de observaciones el orden subyacente que lo explica. Una paradoja, por ejemplo, es una contradicción aparente que exige el descubrimiento de su lógica interna, la proeza intelectual, según Ernesto Sábato, de advertir que “una piedra que cae y la Luna que no cae son el mismo fenómeno”.

La unidad y el orden han sido premisas en casi todas las teorías y cosmogonías a lo largo de la historia humana. La palabra cosmos, de origen griego, significa “orden”. En numerosos mitos cosmogónicos el universo surge del caos, incluso en aquellos que afirman la intervención de un Creador personal. Para la tradición judeocristianomusulmana, el bien es la unidad, Dios, Uno. El demonio era el Heterodoxo o era la dualidad, el dos, la maldición de lo femenino que lo masculino, el tres, repara (Dorneus, 1602).

Sin embargo, sin el conflicto, sin la dualidad y la diversidad no hubiese historia bíblica ni hubiese Dios creando el mundo. Los conflictos y las contradicciones son un atributo de la diversa narrativa bíblica que nunca sería reconocido por un creyente tradicional.

Desde un punto de vista teológico, también la dualidad, la creación y el pecado, el Bien y el Mal inevitablemente surgen del Uno, Dios. Lo mismo podemos entender de las religiones asiáticas. No así las religiones amerindias, sobre todo las prehispánicas, donde el conflicto es, de forma explícita, combustible del Cosmos, orden casi amoral del equilibrio de lo diverso y de los opuestos.

La ciencia moderna, surgida del neoplatonismo de los Copérnicos y los Galileos, no podía ser una excepción. Einstein se maravillaba que el mundo sea inteligible y nunca dejó de buscar la teoría que unificara el macro y el microcosmos y evitara el juego de probabilidades e incertidumbres. Uno de los principios de esa razón inteligible es el principio de unidad, que no permitía a la naturaleza (mejor dicho, a las representaciones de la naturaleza) afirmaciones contradictorias. Algo no podía ser y no ser al mismo tiempo, como la luz no podía ser onda y fotón a principios del siglo XX.

Stephen Hawking, en A Brief History of Time (1988), resolvió estas perplejidades epistemológicas con una tautología: “vemos el universo de la forma que es porque existimos”. El Universo posee un orden del cual extraemos leyes generales o las leyes generales son la forma que tenemos los humanos de relacionarnos con ese Universo diverso.

Ahora, en la naturaleza física las contradicciones son apenas fuerzas opuestas. En filosofía clásica las contradicciones eran pruebas de un razonamiento defectuoso cuyo nombre ha pasado a la lista de palabras obscenas. En la naturaleza psicológica las contradicciones son expresiones de represión.

Pero para la historia, quizás las contradicciones sean el motor creador.

Los ejemplos abundan. Norman Cantor ha observado en The American Century (1997) una incompatibilidad sustancial entre el marxismo y el modernismo. Como la teoría de Charles Darwin, el marxismo es heredero no sólo del heguelismo sino del pensamiento victoriano en general desde el momento en que explica un fenómeno recurriendo a su historia. La Modernidad o, mejor dicho, el movimiento moderno de finales de siglo XIX y principios del siglo XX representado particularmente en las vanguardias, desde el futurismo hasta el surrealismo, es una reacción “por agotamiento” del pensamiento y la moral victoriana. El pensamiento victoriano se funda en el historicismo y su miedo y reacción ante el caos de las primeras etapas de la Revolución Industrial —pobreza, criminalidad y diversos movimientos sociales— funda la policía moderna y la moral rígida, al menos en el discurso, el sermón y el castigo.

El pensamiento moderno no. Fue parricida; por momentos pretendió establecerse como una nueva historia y una nueva naturaleza, como una fórmula matemática que es producto de una larga historia pero no la reconoce en sí misma ni la necesita para evidenciarse verdadera.

El marxismo y el pensamiento moderno, el primero de raíz victoriana (lo cual es por lo menos otra paradoja) y el segundo antivictoriano, antiautoritario por lo que tenía de iluminista, fueron socios en su ataque al orden burgués y conservador, sobre todo en el siglo XIX y hasta el tercer cuarto del siglo XX. Sin embargo este conflicto se evidencia con la condena al arte moderno y al resto del pensamiento moderno luego del triunfo de la revolución rusa de 1917 y, sobre todo, del posterior estalinismo que condenó las vanguardias y la libertad creadora del individuo moderno.

El arte y el pensamiento moderno apuntaron contra el poder establecido de los Estados, se enfocaron —aquí el aspecto romántico del que carecía la mentalidad victoriana y el marxismo científico— en la subjetividad y la libertad del individuo sobre las fuerzas deterministas de la historia, de la economía o de la religión.

En el siglo XX, sobre todo en América Latina, podemos encontrar esta unión conflictiva de ambas fuerzas. Bastaría con leer las acciones y toda la obra escrita de Ernesto Guevara y de los intelectuales de izquierda más importantes del continente: el modernismo en la valoración de la libertad creativa del individuo y la época victoriana en el valor de la moral sobre las condiciones económicas; la realidad de cierto determinismo económico en la cultura popular que hunde sus raíces en el marxismo y el romanticismo del individuo que quiere ser pueblo pero ante todo es un individuo vanguardista. La razón marxista del progreso de la historia a través de una clase industrial, proletaria, y la valoración del origen perdido, de los valores agrícolas propio de los pueblos originarios.

Estas y otras contradicciones serán valoradas por los militantes de izquierda como inexistentes o circunstanciales o propias de un contexto contradictorio, como lo es el capitalismo y el orden burgués. Y como defectos de la narrativa política e ideológica, por la derecha. Todos unirán el valor de las contradicciones a sus adversarios sin advertir la naturaleza diversa de las contradicciones, como las bacterias o los tipos de colesterol.

Sospecho que no habría historia, de la buena y de la mala, sin cierto tipo de contradicciones sustanciales.

En nosotros, los individuos, las contradicciones son una condición humana. En nosotros, los pueblos, las contradicciones abren y cierran caminos, provocan revoluciones y largos períodos de status quo.

¿Qué seríamos sin nuestras contradicciones? ¿Quién puede reclamar una perfecta coherencia en su vida y en sus ideas? ¿Qué sería la historia sin esa permanente tensión que la mantiene en marcha, en un estado de fiebre inestable, siempre en búsqueda de la lógica de la perfecta coherencia, que es el mayor de todos los delirios?

Jorge Majfud

Jacksonville University

August 2010.