O Caçador de Histórias

Do último livro de Eduardo GaleanoO Caçador de Histórias, publicado após a sua morte a 13 de abril de 2015, retirei estas pequenas histórias.

 

ESTRANGEIRO

Num jornal do bairro do Raval, em Barcelona, uma mão anónima escreveu:

O teu deus é judeu, a tua música é negra, o teu carro é japonês, a tua pizza é italiana, o teu gás é argelino, a tua democracia é grega, os teus números são árabes, as tuas letras são latinas.

Eu sou teu vizinho. E ainda me chamas estrangeiro?

 

 

OS LIVRES

De dia, guia-os o sol. À noite, as estrelas.

Não pagam bilhete, e viajam sem passaporte e sem preencher impressos da alfândega nem dos serviços de emigração.

Os pássaros, os únicos que são livres neste mundo habitado por prisioneiros, voam sem combustível de um polo ao outro, tomando o rumo que lhes apetecer e à hora que quiserem, sem pedir licença aos governos que se julgam donos do céu.

 

 

OS NÁUFRAGOS

O mundo viaja.

Há mais náufragos que navegantes.

Em cada viagem, há milhares de desesperados que morrem sem contemplar a travessia para o paraíso prometido onde até os pobres são ricos e todos vivem em Hollywood.

Não duram muito as ilusões dos poucos que conseguem chegar.

 

 

COSTUMES BÁRBAROS

Os conquistadores britânicos ficaram com os olhos esbugalhados de assombro.

Eles provinham de uma nação civilizada, onde as mulheres eram propriedade dos maridos e lhes deviam obediência, como a Bíblia mandava, mas na América foram encontrar um mundo às avessas.

As índias iroquesas e outras revelavam-se suspeitas de libertinagem. Os maridos nem sequer tinham o direito de castigar as mulheres que lhes pertenciam. Elas tinham opiniões próprias e bens próprios, direito ao divórcio e direito de voto nas decisões da comunidade.

Os brancos invasores já não conseguiam dormir em paz: os costumes das selvagens pagãs podiam contagiar-lhes as mulheres.

 

 

O PRAZER, UM PRIVILÉGIO MASCULINO

O que é esse rolinho de carne que espreita por entre as pernas das mulheres? Para que serve?

A ciência não achava resposta, até que se impôs a certeza de que o clítoris era um erro da anatomia feminina. Em 1857, o cientista inglês William Acton sentenciou:

– A mulher recatada não procura o prazer no sexo. Ela só procura comprazer o marido e dar-lhe filhos.

E por essa altura já se tinha demonstrado que o orgasmo feminino era imaginário e desnecessário para o sagrado exercício da maternidade.

 

 

A GARRA CHARRUA

No ano de 1832 os poucos índios charrua que haviam sobrevivido à derrota de Artigas foram convidados para assinar a paz, e o presidente do Uruguai, Fructuoso Rivera, prometeu-lhes que iam receber terras.

Quando os charruas estavam bem comidos, bem bebidos e bem adormecidos, os soldados avançaram. Os índios foram esfolados à faca, para não se gastarem balas, e para não se perder tempo em enterros foram lançados ao ribeiro Salsipuedes.

Foi uma cilada. A história oficial chamou-lhe batalha. E de cada vez que nós uruguaianos vencemos um troféu de futebol, celebramos o triunfo da garra charrua.

 

 

REPITA A ORDEM, SE FAZ FAVOR

Nos nossos dias, a ditadura universal do mercado dita ordens bem contraditórias:

Temos de apertar o cinto e temos de baixar as calças.

Os mandatos que vêm de lá de cima do alto do céu não são muito mais coerentes, verdade seja dita. Na Bíblia (Êxodo 20), Deus ordena:

Não matarás.

E no capítulo seguinte (Êxodo 21), o mesmo Deus manda matar por cinco motivos diferentes.

 

 

 BREVÍSSIMA SÍNTESE DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

Há já uns séculos que os súbditos se disfarçaram de cidadãos e que as monarquias se preferem chamar repúblicas.

As ditaduras locais, que se dizem democracias, abrem as portas à entrada avassaladora do mercado universal. Neste mundo, reino dos livres, somos todos um só. Mas somos um ou somos nenhum? Compradores ou comprados? Vendedores ou vendidos? Espiões ou espiados?

Vivemos presos entre garras invisíveis, atraiçoados pelas máquinas que simulam obediência e mentem, com cibernética impunidade, ao serviço dos seus patrões.

As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito. E as máquinas mandam também nas guerras, onde matam tanto ou mais que os guerreiros fardados.

 

 

 O DIREITO AO SAQUE

No ano de 2003, Samir, um veterano jornalista do Iraque, andava a visitar alguns museus da Europa. Museu após museu, descobria maravilhas escritas na Babilónia, heróis e deuses talhados nas colinas de Nínive, leões que tinham voado desde a Assíria.

Alguém se aproximou, oferecendo ajuda:

Quer que chame um médico?

Engolindo as lágrimas, balbuciou:

Não, por favor. Estou bem.

E depois explicou:

Magoa-me simplesmente ver quanto roubaram e quanto roubarão.

Dois meses depois, as tropas norte-americanas lançaram a sua invasão. O Museu Nacional de Bagdade foi saqueado. Perderam-se

cento e setenta mil obras.

 

 

SAGRADA FAMÍLIA

Pai castigador, mãe abnegada, filha submissa, esposa muda.

Como Deus manda, a tradição ensina e a lei obriga:

O filho golpeado pelo pai que foi golpeado pelo avô que golpeou a avó nascida para obedecer,

Porque ontem é o destino de hoje e tudo o que foi continuará a ser.

Mas numa qualquer parede, algures, alguém rabiscará:

Eu não quero sobreviver.

Eu quero viver.

 

 

CASTIGOS

Em 1953, a Câmara Municipal de Lisboa publicou a sua Portaria nº69035:

Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins, determina-se à Polícia e à Guarda Florestal uma permanente vigilância das pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes, e estabeleçam-se as seguintes multas:

1º Mão na mão: 2$50

2º Mão naquilo: 15$00

3º Aquilo na mão: 30$00

4º Aquilo naquilo: 50$00

5º Aquilo atrás daquilo: 100$00

Parágrafo único: Com a língua naquilo, 150$00 de multa, preso e fotografado.

 

 

A PERIGOSA

Em novembro de 1976, a ditadura militar argentina crivou de balas a casa de Clara Anahí Mariani e assassinou os seus pais.

Dela nunca mais se soube nada, embora desde então figure na Direção de Investigação da Polícia da Província de Bueno Aires, na secção reservada aos delinquentes subversivos.

A sua ficha diz:

Extremista.

Ela tinha três meses de idade quando foi catalogada assim.

 

 

SE ESTÁ NO LAROUSE…

Em 1885, Joseph Firmin, negro, haitiano, publicou em Paris um livro de mais de seiscentas páginas, intitulado Sobre a Igualdade das Raças Humanas.

A obra não teve difusão, nem repercussão. Só encontrou o silêncio. Naquele tempo, ainda era palavra santa o dicionário Larousse, que explicava assim o assunto:

Na espécie negra, o cérebro está menos desenvolvido do que na espécie branca.

 

 

 ASSIM NASCEU LAS VEGAS

Lá por volta de 1950 e picos, Las Vegas era pouco mais do que nada. A sua maior atração eram os cogumelos atómicos que os militares ensaiavam por ali perto e que davam espetáculo à assistência, exclusivamente branca, que podia contemplá-lo do alto dos terraços. E também atraíam o público, exclusivamente branco, os artistas negros que eram as grandes estrelas da canção.

Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Nat King Cole eram bem pagos, mas só podiam entrar e sair pela porta de serviço. E quando Sammy Davis Jr. mergulhou na piscina, o diretor do hotel mandou mudar a água toda.

 E assim foi até que em 1955 um milionário estreou em Las Vegas aquilo a que chamou o primeiro hotel casino inter-racial dos Estados Unidos. Joe Louis, o lendário pugilista, dava as boas vindas aos hóspedes que já eram brancos e negros; e assim Las Vegas começou a ser Las Vegas. Os donos da aldeia que se transformou no mais famoso paraíso de plástico continuaram a ser racistas, mas tinham descoberto que o racismo não era um bom negócio. Ao fim e ao cabo, os dólares de um negro rico são tão verdes como os outros.

 

PEQUENO DITADOR INVENCÍVEL

Matar era um prazer, e pouco importava se o finado era veado, pato ou republicano. Mas as perdizes eram a especialidade das caçadas de Francisco Franco.

Num dia de outubro d 1959, o Generalíssimo matou quatro mil e seiscentas perdizes, e assim superou o seu próprio recorde.

Os fotógrafos imortalizaram esta jornada vitoriosa. Aos pés do vencedor jaziam os seus troféus, que cobriam os solos do mundo.

 

 

ESSA PERGUNTA

A família Majfud tinha siso afrontada pela ditadura militar uruguaiana, sofrera no cárcere torturas e humilhações, e fora despojada de tudo o que tinha.

Uma manhã, os meninos estavam a brincar num velho carrinho de mão quando se ouviu um tiro. Eles estavam longe. Mas o tiro atravessou os campos de Tacuarembo e então souberam, quem sabe como, quem sabe porquê, que o estampido viera da cama da tia Marta, a mais querida.

Desde essa manhã, Nolo, o mais pequeno da família, pergunta e pergunta-se:

Porque nascemos, se temos de morrer?

Jorge, o irmão mais velho, tenta ajudá-lo.

Procura uma resposta.

Os anos vão passando, como passam as árvores diante da janela do comboio; e Jorge continua à procura da resposta.

 

http://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/137-dos-indignos-e-dos-indignados-36830

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