Uma hermenêutica da história latino-americana

Hacia una hermenéutica de la historia latinoamericana (Spanish)

Para uma hermenêutica da história latino-americana

Jorge Majfud

Em abril de 2010, um conhecido filósofo espanhol convocou uma reunião fechada numa universidade de Nova York para discutir uma possível reforma do hispanismo. No amplo pann house da biblioteca nos reunimos em círculo uma dezena de professores de diversos estados, convidados especialmente para a ocasião. Em cada oportunidade, nomeou-a como “mesa redonda”. Estavam as cadeiras, a forma circular e a ideia de um debate equitativo de sobre o rançoso espírito conservador da tradição hispânica que havia imposto um corpus arbritário de textos consagrados. Todos coincidimos no rechaço a grande parte dessa tradição, sobretudo aos valores impostos pela cultura hegemônica que havia surgido depois do Século XX, em detrimento de uma modernidade ilustrada mais rica e mais diversa que lhe havia precedido. Um dos especialistas insistiu na necessidade de definir “o que era” a ilustração e não o que “não havia sido”.

Na referida mesa redonda faltava a mesa redonda. O exemplo ilustrava uma posição exposta no livro Evolução e Revolução dos Signos. Na sala de discussão faltava a mesa, mas o elemento ausente estruturava o espaço e a ideia. A força do ausente era tal que ainda presente no mesmo nome “a mesa redonda” passava perfeitamente inadvertido ante os olhos de uma dezena de especialistas em cultura e linguagem.

Entendo que da mesma forma os elementos ausentes podem, muitas vezes, estruturar, induzir e controlar práticas e pensamentos a um grau que se subestima a favor de uma suposta consciência histórica coletiva ou individual. No livro anteriormente referido – concluído como tese doutoral há vários anos e em impressão no 2010 – o elemento visível como clave de busca é o elemento reprimido pela conquista e as sucessivas colonizações territoriais e, sobretudo, morais e culturais. É dizer, esse oceano quase desconhecido do mundo equivocadamente chamado “pré-hispânico”, que tradicionalmente se refere a uma cultura indígena que terminou com a chegada dos europeus ao continente dos pássaros. Por exemplo, por que se tem estudado até o fastio as leituras de Sor Juana Inés de La Cruz, suas influências provenientes do Século de Ouro espanhol, e não se tem estudado as relações da criança Juana Inês com suas criadas índias? Como explicar o feminismo da monja rebelde recorrendo ao misoginismo dos escritores espanhóis do Século XVI e XVII? Incluída a mesma Santa Tereza, defensora da submissão feminina ao poder masculino, citada pela mesma Sor Juana mais por conveniência política que por convicção ideológica. Por que desestimar que a chamada cultura machista e misógina que a Europa da Idade Média e o Renascimento

Sem dúvida, o espírito ameríndio sobreviveu, não apesar da violência senão, talvez, pela violência mesma de uma forma muitas vezes subterrânea, camuflada e travestida mas fortalecida, mais além do reconhecimento artesanal e de uma tradição pitoresca, fácil de consumir pelo turismo e a mentalidade museística e voyerista contemporânea. Uma história que em certa medida foi a história dos cristãos primitivos até a crise maior de sua oficialização no Século IV, por razões imperiais, e a história de mouros e judeus convertidos no Sul da Espanha, a partir do Século XVI.

Uma da hipóteses que tenho tratado no livro anterior considera que um elemento sempre presente na cultura e na militância do Século XX  procede dos primeiros tempos dessa região que hoje se conhece imprecisamente como América Latina, nem tudo nem tanto de l’intelectuel engagé representado por Zola ou Sartre. Esta atitude, esta prática e concepção do compromisso e a militância do intelectual latinoamericano funde suas raízes na consciência traumática da Conquista no Século XVI e os séculos de brutal colonização que o seguiram.

A experiência da violência e da ilegitimidade de toda a ordem social está presente desde as primeira crônicas dos conquistadores e se acentua à medida que os motivos, crioulos e indígenas, se dedicam à tarefa de autonarração e de reflexão sobre a identidade. Mas também há uma cosmogonia que não é européia.

Como se não se tratasse só de um produto da Conquista senão de um rasgo peninsular, a atribuição de queixa e insastifação do pensamento popular latino-americano se pode rastrear sem dificuldades desde os Diários de Colón até as crônicas dos conquistadores. Queixa e insatisfação pelas magras recompensas obtidas do saque, segundo a injusta distribuição que administrava a autoridade na Europa. Queixa e insatisfação pelo saque e a corrupção dos mandos medios, nunca do rei.

Igual, do lado dos nativos americanos a queixa e a desconfiança ao poder será uma tradição justificada por uma permanente violência física, moral e estrutrual que, por sua vez, será contestada periodicamente com a violência da rebelião, da revolta e, em casos mais excepcionais, articulados

Esta representação pela força da ideologia da escravidão, do racismo e do classismo de sociedades estamentais, se prolongou por mais de três séculos, mais além das revoluções ou revoltas que deram as independências políticas à novas repúblicas a princípios do Século XIX.

As sociedade ameríndias continuaram sendo fundamentalmente agrícolas, conservaram e adaptaram seus idiomas, seus mitos, suas práticas de produção e reprodução e suas formas particulares de sentir e de pensar nos europeus até bem entrado o Século XX, em muitos casos, até hoje em dia. Mas também deveram adotar, de forma ortopédica, uma ideologia e um corpus de valores hegemônicos que serviam a sua própria exploração, desde elaboradas teorias sobre a inferioridade branco-européia passando por um corpus diverso de reflexões teológicas produzidos na metrópole e de sermões populares. Parte desta ideologia procurava, precisamente, a desvalorização daquilo que o distinguia do colonizador ou a posterior classe crioula dirigente.

Essa classe minoritária que fundou as repúblicas de papel o fez baseada na cultura ilustrada de Europa enquanto uma população majoritária em vastas regiões do Peru, México e das repúblicas centro-americanas até o Século XX nem se quer falavam o espanhol como primeira língua nem estavam inteirados do Século da Luzes, da Liberdade de Mercado ou da Ditadura do Proletariado mas além das consequências bélicas na que deviam participar. Razão pela qual as democracias liberais por muito tempo e ao largo de muitos povos apenas significou a legitimação dos estados autoritários ao serviço de minorias dirigentes.

É dizer, ainda que um estado presente da sociedade e uma forma de pensar não estão rigidamente determinados pelo passado, como podem estar as órbitas dos planetas, o presente tampouco é indiferente à sua influência. Cada paradigma, por radical que seja, é o resultado de uma larga historia ao mesmo tempo que seus indivíduos exercem parte dessa liberdade a que aspiram todas as liberações propostas pela tradição humanista. Queiramos ou não, sempre partimos de uma base pré-estabelecida sobre a qual pensamos e sentimos. Não inventamos nenhuma linguagem; apenas nos valemos dele para conservá-lo ou para mudá-lo, mas não podemos atuar livremente fora dele, fora dos parâmetros mentais nos quais viemos ao mundo. Apenas se podemos ver pelo olho da fechadura em um intento de reflexão e auto-análises

Por si fossem poucas limitações, um dos maiores obstáculos nas academias firma em considerar uma disciplina como um feudo limitado que promove o estudo de tudo o que caía dentro dos limites semânticos previamente estabelecidos por uma tradição e se nega ou rechaça ao lidar com tudo o que caía ou proceda mais além de seus muros. Esta concepção das disciplinas acadêmicas se agravou, especialmente no campo literário, com o auge das correntes pos-modernas – Barthes, Derrida, Lyotard – que consideraram a um texto como um corpo morto, autorreferencial, um jogo linguístico ou de signos sem transcendência epistemológica nem existencial. Basicamente significa que se um volta a sua casa e a encontra feita cinzas, não deve relacionar as cinzas com um possível incêndio e menos este com as ameaças incendiárias do vizinho, já que as cinzas são o que são e não há nada por trás do fenômeno.

Já desde o humanismo renascentista o autor deixou de ser autoridade, Deus, para ser um meio de razão e da história e, em última instância, uma opinião mais sobre seu próprio texto, junto com a do leitor. No século XX simplemente se o desautorizou até proclamar sua morte, já que representava – ao menos algo representava algo – um estorvo à liberdade do leitor. Uma vez morto o autor, parte fundamental do contexto, só quedava negar o contexto metaliterário primeiro – a realidade – e o mesmo contexto literário depois. Até chegar à ideia cadavérica de que um texto não tem nenhum referente e se o tem, é um simples escravo da ideia.

O jogo linguístico e autoreferencial de um texto foi simultâneo à lógica do consumo de símbolos e bens do capitalismo americano e da mesma tecnologia digital mais tarde, de onde a realidade não virtual e a lógica dedutiva têm sido remplazada pela dinâmica das induções que surgem de uma segunda natureza construída pelo programador em forma de regras de jogo, de convenções, desde as operações de software até as mesmas operações matemáticas de uma planilha Exel. Já não se trata de compreender uma natureza unitária senão às regras tradicionais de um jogo dado. Compreender um sistema X não significa compreender um sistema Z porque ao tratar-se de uma linguagem (chinês e bantú), de uma jogo (futebol e beisebol) ambos sistemas podem ser semelhantes ou incompatíveis. A ideia sobre o universo unitário de onde “uma pedra que cai e a Lua que não cai são um mesmo fenômeno” já não se aplica ao mundo virtual, que é o novo mundo humano.

Pelo contrário, não creio que uma disciplina acadêmica seja ou deva ser um círculo fechado de especialistas, um jogo ou um idioma único, senão um ponto de encontro de todas as especialidades que o são apenas. Um espaço de cruz, de choques e múltiplas derivações. Não um espaço fechado, estático, autorreferencial. Por outro lado, também creio necessária a reabilitação de todo o metaliterário como frente principal do literário e o literário como um espaço de cruce da realidade múltipla. Isto significa uma reinvidicação do autor, do contexto e, sobretudo, do referente de cada texto, seja escrito, oral ou visual, como o elemento que dá origem e sentido final ao texto.

Da mesma forma, a história em geral e a história latinoamericana em particular não deve ser vista simplemente como o resultado do que se depreende dos textos escritos com pretenções de documentos. A história latinoamericana é a história de uma tradição ilustrada sem ilustração. É dizer, baseada no uso e abuso do texto como reflexo único da realidade que não refletia a realidade senão que a ocultava, que continuava reprimendo a liberdade e diversidade humana em benefício da autoridade européia.

Portanto, o estudo textual deve fazer-se com um rigor hemenéutico e uma forma de facilitar este trabalho consiste em partir de hipóteses. Uma hipótese ou chave de leitura fundamental é a irrelevância quando não há ausência do componente indígena em toda a cultura, o pensamento, a mentalidade e o “modus operandi” do continente.

Da mesma forma que um idioma não se muda em umas poucas gerações, tampouco se muda uma forma de sentir e de pensar. Ainda quando um idioma se impõe, como o espanhol na América ou o inglês na. Índia, os povos multitudinários sempre conservaram mais ou menos ideias e sobretudo valores, ações e crenças que procedem de suas milionárias raízes históricas, sempre travestidas por uma modernidade que diante de tudo é visível e quase por regra geral é o mais superficial de uma civilização. Para completar o paradoxo e o ocultamento destas raízes, a mesma cultura contemporânea reproduz na área visual da cultura vernácula, como essas artesanias indígenas que se vendem no Perú ou no México e que são fabricadas em série na China.

Não deixa de ser um paradoxo que a história sempre tem estudado e representado a história da humanidade como uma sucessão de feitos, quase sempre militares, quase sempre superficiais, para a história profunda dos povos. Assim também a história do pensamento se tem representado a si mesma como uma sucessão de ideias que mudam, se transmitem ou reaparecem cada tanto, quase sempre senão sempre, através do fio condutor de seus autores e leitores. Quase sempre influenciando povos inteiros. Quase nunca através das subterrâneas potências dos povos, das civilizações com suas formas de fazer e de sentir e de pensar que definem ou condicionam uma ideia, uma corrente de pensamento.

Igual as tecnologias: se considera que a imprensa no Século XX, a máquina a vapor do Século XIX, ou a Internet no Século XX provocaram revoluções nas formas de sentir e de pensar das sociedades mas não se considera por que ditos inventos apareceram em determinado momento e não antes quando foram possíveis. E se não foram possíveis por um estado x de tecnologia do momento, por que a humanidade ou um grupo representante dessa humanidade em determinado momento se preocupou em dar uma solução a um problema do que não dependia da sobrevivência imediata da humanidade.

A partir destas chaves hermenêuticas de leituras podem reler-se os textos que inventaram nossas repúblicas e nossas realidades, nossos sonhos e nossos crimes, desde o ensaio até a poesia e a ficção, desde Domingo Sarmiento até José Martí. Nesta releitura deveremos ter como marco a ideia de uma ausência – o texto não escrito – que, de uma forma ou de outra, se explicará e se revelará na mesma violência suave dos textos escritos, como as igrejas construídas sobre os templos indígenas. Assim os documentos históricos se evidenciam ainda mais em seu caráter literário, fictício, como criadores de uma realidade mais real que a realidade. Como sugeri anteriormente, é possível suspeitar, senão descobrir, as pegadas de Quetzalcoatl, Viracocha, dos mitos e de antigas formas nos mesmos escritos dos escritores comprometidos do Século XX, desde Roque Dalton e Ernesto Guevara até Ernesto Cardenal e Eduardo Galeano.

(Tradução de Rosalvo Acioli Júnior)

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